A decisão da Odebrecht Realizações Imobiliárias (O'R) de investir na construção de empreendimentos no Rio de Janeiro é anterior à escolha da capital fluminense como sede das Olimpíadas de 2016. Mas isso não quer dizer que a empresa, braço do Grupo Odebrecht criado em 2004, não vislumbre oportunidades advindas da realização dos jogos na cidade daqui a sete anos. De olho no aumento da demanda por residenciais de alto padrão, conjuntos comerciais e unidades hoteleiras, a empresa adquiriu terrenos com valor geral de vendas (VGV) estimado em R$ 1 bilhão, a maior parte deles na região da Barra da Tijuca. Ali, a O'R acaba de lançar um complexo com VGV de R$ 240 milhões, composto por seis edifícios com escritórios, salas comerciais e lojas. "A cidade passa por um momento especial, com investimentos em infraestrutura, transporte, segurança, petróleo e gás. E as perspectivas são ainda melhores por conta da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016", avalia Antônio Pessoa, diretor regional da O'R no Rio de Janeiro. Em entrevista à Construção Mercado, o executivo revela que os planos da construtora e incorporadora se concentram na zona oeste da capital fluminense, onde boa parte da estrutura para a realização dos jogos deverá ser montada, e nas habitações para baixa renda. Antônio Pessoa também aponta as oportunidades para o setor trazidas pelas Olimpíadas, Copa de 2014 e reaquecimento da economia. Confira.
Desde que foi criada, em 2004, a Odebrecht Realizações Imobiliárias já ergueu empreendimentos em São Paulo, Bahia, Minas Gerais e Pernambuco. Agora está entrando no Rio de Janeiro. O que motivou isso?
Desde 2006 buscávamos uma oportunidade para ingressar no mercado do Rio de Janeiro. Investimentos da indústria, como a construção da CSA (Companhia Siderúrgica do Atlântico) e do Comperj (Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro), e também em portos e campos de petróleo, nos fizeram perceber que havia um movimento consistente de reindustrialização no Estado, que em longo prazo propiciaria um aumento geral do PIB (Produto Interno Bruto) dessa região. Nossa visão é a de que, quanto mais empregos, mais renda. E tudo isso obviamente impulsiona o mercado imobiliário. Felizmente o Rio está resgatando sua importância no cenário econômico nacional e a O'R quer participar ativamente desse processo.
Diante desse mercado aquecido, o senhor crê que haverá valorização dos imóveis? Os imóveis na Barra da Tijuca já estão 10% mais caros desde o anúncio da vitória do Rio para sediar os Jogos Olímpicos de 2016.
A cidade ainda está em euforia por causa do anúncio das Olimpíadas no Rio, o que torna difícil avaliar a situação agora. Mas entendemos que haverá uma procura forte em algumas áreas, sobretudo aquelas que receberão investimentos para melhorias da infraestrutura urbana, como o metrô. Isso provavelmente irá elevar os preços em alguns bairros, mas é cedo para sabermos o quanto.
Uma das questões sobre a qual se fala, sobretudo em relação à realização das Olimpíadas, diz respeito à carência de infraestrutura hoteleira. A Odebrecht tem planos de ajudar a suprir esse déficit?
Com certeza a hotelaria é um segmento a ser trabalhado e, o que posso dizer no momento, é que estamos estudando a implantação de hotéis de padrão executivo e que já fomos procurados por investidores interessados em empreendimentos dessa natureza. De acordo com a demanda, podemos até mesmo redirecionar para o setor hoteleiro parte dos investimentos inicialmente previstos para a construção de unidades de escritórios.
Com Copa do Mundo e Olimpíadas, que áreas do Rio de Janeiro despontam como as mais promissoras para o setor imobiliário nesse momento?
Um pólo importante é a Barra da Tijuca, com destaque para a avenida Abelardo Bueno. Após duplicação e requalificação promovidas pela prefeitura por ocasião dos Jogos Pan-americanos em 2007, essa avenida adquiriu novo status e deverá concentrar os novos empreendimentos comerciais e hoteleiros da cidade. Não coincidentemente essa avenida termina no Rio Centro e será o epicentro do projeto olímpico. Essa área também é endereço de três terrenos adquiridos pela O'R no Rio de Janeiro. Além da Barra, estamos atentos a oportunidades em outras regiões, como a zona sul e a zona portuária, que também podem se beneficiar com obras de revitalização, além de Niterói, claro.
Pelo o que tem visto até agora, acredita que as obras de infraestrutura urbana serão realizadas conforme anunciadas?
Creio que sim. Os governos, em diferentes esferas, fizeram o dever de casa adequadamente ao trazer um evento como as Olimpíadas para o Brasil, que certamente trará valor para a cidade e fortalecerá ainda mais o turismo.
O senhor disse que desde 2006 a empresa estava procurando uma oportunidade para entrar no Rio de Janeiro. Por que o primeiro lançamento está acontecendo apenas agora, quase no final de 2009?
O Rio de Janeiro tem uma particularidade que é a escassez de terrenos, gerada, em grande parte, pela geografia da cidade, espremida entre a montanha e o mar. Encontrar terrenos de bom porte e bem localizados é, portanto, tarefa árdua. Levamos dois anos para adquirir cinco terrenos que, juntos, somam valor geral de vendas de R$ 1 bilhão. Um desses terrenos está em Niterói. Os outros quatros estão na cidade do Rio, mais precisamente na Barra da Tijuca, no novo eixo de desenvolvimento da cidade.
Qual perfil de empreendimento a empresa pretende trabalhar nesses lugares?
Desse R$ 1 bilhão que mencionei, R$ 450 milhões referem-se aos nossos dois primeiros lançamentos. O Dimension Office & Park é um conjunto comercial composto por 928 unidades entre salas, lojas e espaços corporativos, distribuídos em seis blocos. O empreendimento está localizado no encontro das avenidas Ayrton Senna e Abelardo Bueno, em um terreno de aproximadamente 25 mil m². O público-alvo é composto por grandes corporações, pequenas empresas, profissionais liberais, investidores e poupadores.
E o segundo lançamento?
Com lançamento previsto para 2010, o Murano Luxury Apartments é um residencial que será erguido na Praia de Icaraí, em Niterói. Serão 206 unidades, de três e quatro quartos, com até 302 m² cada.
Por que Niterói?
Trata-se de uma cidade com 500 mil habitantes e que apresenta o 3o maior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do País. Das cidades do Rio de Janeiro, Niterói é a que oferece a melhor qualidade de vida e, segundo nossos estudos, apresenta grande demanda por residenciais de alto padrão.
De que forma a entrada da Odebrecht Realizações Imobiliárias no mercado fluminense foi estruturada?
Sempre que vamos ingressar em um novo mercado, procuramos nos apoiar em parceiros locais, pois acreditamos que isso permite que a gente se aculture de forma mais rápida, tanto para incorporação, quanto para construção. No caso do Rio de Janeiro, mais uma vez buscamos parceiros de alto nível e com reconhecimento no mercado. A construtora SIG, por exemplo, está há mais de 20 anos no mercado. E com oito anos no mercado, a Performance tem grande conhecimento adquirido nos segmentos residencial e hoteleiro.
Há intenção de expandir e diversificar o portfólio? Os negócios da O'R no Rio de Janeiro devem atingir também outras regiões do Estado?
Estamos aguardando a aprovação de projetos junto à Caixa Econômica Federal que nos permitirão construir oito mil unidades por meio da marca Bairro Novo. Essas habitações serão erguidas nos municípios de Queimados, São Gonçalo, Nova Iguaçu e Santa Cruz, todos na região metropolitana do Rio. A ideia é investir no segmento residencial popular para famílias com renda de zero a três salários mínimos integrantes do programa federal Minha Casa, Minha Vida.
Então, a estratégia se divide em baixa renda e em empreendimentos de alto padrão simultaneamente?
Isso mesmo. A demanda por alto padrão se justifica porque, como já disse, há escassez de terrenos no Rio de Janeiro, onde os melhores imóveis são procurados por pessoas de outros Estados, e até mesmo de outros países, sobretudo os próximos da orla. Não à toa, junto com Brasília, o Rio de Janeiro é a cidade com os preços médios de imóveis mais elevados do País. A demanda por alta renda é constante. Ao mesmo tempo, o incentivo do governo alavancou a construção para a baixa renda. Ou seja, há demanda nas duas pontas.