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Cenários de custos
Agentes do setor fazem suas apostas para o comportamento dos custos de materiais em 2010

Por Vinicius Abbate

Se 2009 foi o ano da retomada da construção civil, 2010 aponta para a consolidação de um novo ciclo de aquecimento do setor. O número de lançamentos imobiliários, principalmente vinculados ao programa Minha Casa, Minha Vida, deverá aumentar expressivamente; as obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) tendem a ser aceleradas com a proximidade das eleições presidenciais. Os projetos preparatórios para a Copa de 2014 e Olimpíadas de 2016 começarão a sair do papel.

Se a relação oferta x demanda dita, em boa parte, os limites de preço de insumos e materiais, fica a pergunta: como se comportarão os custos de produção com tanta obra em andamento? Construção Mercado apresentou a questão a agentes do setor, que, nesta reportagem, arriscam cenários diversos e trazem análises que mais se parecem com pistas para o planejamento de construtoras e incorporadoras frente ao ano que se inicia. Confira.

Cenário crítico
Variação:
aumento acima da inflação, que deve ser de 4,5% ao ano, em 2010.
Efeitos:
os custos de construção residencial e comercial devem crescer acima do índice geral de preços devido à retomada de lançamentos, já observada desde o segundo semestre de 2009.
O que fazer?
Recomenda-se planejamento em negociações de longos prazos com o mercado de fornecedores.

MARCELO SCANDAROLI
Preços inflacionam
"Os custos de construção residencial e comercial devem crescer acima do índice geral de preços devido à retomada de lançamentos, já observada desde o segundo semestre de 2009. Esses empreendimentos, somados às pressões derivadas da aceleração do programa Minha Casa, Minha Vida ao longo deste ano, não devem provocar desabastecimento, mas uma condição de equilíbrio que tende a forçar os preços para cima. Para alguns materiais ainda há de se considerar que a retomada da economia mundial, em viés de crescimento, pode pressionar commodities e o preço da energia, o que provocará crescimento de custos, a ser, por sua vez, rebatido sobre os preços"

João da Rocha Lima, professor e coordenador do Núcleo de Real Estate da Politécnica da Universidade de São Paulo

acervo pessoal
Cimento e metais preocupam
"Na região Sul do País, o principal gargalo é o do cimento, com risco de desabastecimento. As cimenteiras já alegam dificuldades para abastecimento de cimento em 2010, com produção no limite da infraestrutura disponível e excesso na demanda pelo produto, principalmente a partir de fevereiro e março deste ano. A importação também fica comprometida, já que os portos não têm suporte suficiente para receber toda a demanda de importações. A tendência, portanto, é de aumento dos preços do cimento.

Já para commodities que dependem do mercado externo, como o aço, o cobre e o alumínio, há previsão de inflação. A expectativa é que a produção desses itens volte aos patamares regulares na China e nos EUA e, se o consumo também for retomado de forma expressiva, deverá haver subida nos preços desses produtos. Ainda assim, o aço deve se manter em equilíbrio, podendo haver inflação com aumento da demanda depois dos seis primeiros meses deste ano.

O restante dos insumos deve permanecer equilibrado, como vidros e cerâmicas, com preços constantes durante o ano"

Marco Antonio Schirmer, diretor da construtora Goldsztein Cyrela no Rio Grande do Sul

 

Cenário moderado
Variação:
aumento de 0 a 5%.
Efeitos:
desequilíbrio entre oferta e demanda força aumento de preços, mas contenção do mercado externo e disponibilidade de estoque no mercado interno impedem ampliação dos custos acima do índice geral de preços (inflação).

 

MARCELO SCANDAROLI
Câmbio segura alta de preços
"O cenário para 2010 indica que os custos dos principais insumos, em princípio, não subirão. Com o câmbio favorável ao real, as importações devem continuar acontecendo, segurando os preços. Aliada à inflação sob controle, a condição atual do câmbio também permitirá que os preços permaneçam estáveis durante o ano, mesmo se confirmada a capacidade de crescimento do setor na casa dos 10%. A tendência é de estabilidade e crescimento moderado, o que ajuda a manter o controle dos preços em geral"

Luiz Fernando Pires, presidente do Sinduscon-MG (Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado de Minas Gerais)

MARCELO SCANDAROLI
Aumentos pontuais
"Apesar de a retomada do crescimento do setor da construção estar evidente, nós, da Matec, não esperamos que o impacto em preços e prazos de materiais e serviços seja tão grande quanto o ocorrido em 2008, quando o contexto era outro: além de o mercado brasileiro estar aquecido, o mercado externo também estava num momento de grande atividade, situação que não é observada hoje.

Já estamos percebendo que a demanda por materiais e serviços vem aumentando, situação que deverá continuar ao longo de todo este ano, causando aumentos pontuais de preços e alongamento de prazos de entrega de materiais e serviços. Para transpor esses desafios é fundamental que as construtoras invistam fortemente em planejamento e em negociações de longos prazos com o mercado de fornecedores"

Fabio Vaccari, superintendente de suprimentos da construtora Matec Engenharia, de São Paulo 

acervo pessoal
Pressão sobre custos
"A expectativa para 2010 é de maior pressão sobre os preços dos materiais de construção. Projetamos que o aumento do custo total da construção pela medida do INCC (Índice Nacional dos Custos da Construção) da FGV (Fundação Getúlio Vargas) chegue a 5%. Em 2009, estimamos que o incremento tenha variado entre 2,8% e 3,0%.

Essa variação contempla também mão de obra, que, em 2009, pesou mais, uma vez que os componentes dos custos de produção de materiais estiveram 'bem comportados', como é o caso de derivados de commodities minerais e de petróleo. Além disso, a valorização do real frente ao dólar ajudou - pois as cotações internacionais são balizadas pela moeda americana -, e os cenários de demanda nacional e mundial estavam fracos para esses produtos e 'sobrou' produção no mercado.

Até outubro do ano passado, o custo da mão de obra aumentou 6,6% e o de materiais teve variação negativa de 0,9%. Acreditamos que essa proporção entre custos com pessoal e com insumos vai se repetir em 2010, pois as restrições à oferta de mão de obra mais qualificada deverão aumentar. Ainda assim, alguma recomposição da demanda por insumos, principalmente no mercado interno, e maior pressão sobre os custos de produção, com possibilidade de repasse da diferença ao produto final, poderá pressionar os custos dos materiais.

A atividade da construção, medida pela produção de insumos típicos do setor do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), deve ter registrado queda de 6,9% em 2009. Para 2010 estimamos uma recuperação desse indicador, que deverá crescer 6,1%. Por tudo isso, o setor da construção deve ter desempenho bastante positivo"

 

Cenário otimista
Variação:
negativa - de 0% a 4,5%.
Efeitos: com o aumento da demanda, deverá haver aumento dos preços dos materiais, mas abaixo da inflação anual. A elevação deve ser contida porque haverá acompanhamento das importações e suprimento da oferta.

 

acervo pessoal
Preços ficam abaixo da inflação
"De forma geral, em função do aumento da demanda, deverá haver aumento dos preços dos materiais em torno de 4,5%, um pouco abaixo da inflação, que deve ficar em torno de 5%. A elevação não deverá ser exagerada porque haverá o acompanhamento das importações.

Os insumos que não têm concorrência com os importados devem apresentar ampliação de demanda e de preços; são eles: linha de madeiras, tijolos de argila e mão de obra. Já os itens que sofrem concorrência de importados, embora também devam sofrer pressão de demanda, terão reajustes menores; são eles: cimento, produtos elétricos, metais, aço.

Também há a questão dos preços administrados, que são reajustados de acordo com a inflação passada, como água, energia elétrica e combustível. O reajuste desses produtos, feitos pelos governos federal e estaduais, deve ficar abaixo da inflação que é registrada no varejo. O cenário é otimista, com previsão de inflação baixa e reajustes abaixo do índice anual de inflação, o que não é preocupante"

Alcides Leite, professor de economia da faculdade Trevisan Escola de Negócios

MARCELO SCANDAROLI
Inflação saudável
"O índice de aumento dos preços (INCC) deve ficar abaixo da inflação em 2010. Quanto ao preço dos produtos importados (commodities), os custos são imprevisíveis, como em relação à importação do cobre. O que deve ocorrer é o aumento da demanda, mas sem problemas com a capacidade de oferta. Em média, 15% das indústrias de material de construção estão com capacidade ociosa, e 60% das indústrias preveem investimentos para aumento de sua capacidade produtiva nos próximos meses.

A economia do País estará saudável, sem perspectiva de alta da inflação. Em novembro de 2009, a expectativa de otimismo entre os empresários do setor de material de construção subiu para 70%, ante um índice de 54% no mês de junho.

A indústria do setor investiu fortemente em sua capacidade produtiva entre 2007 e 2008 e apesar da queda de 9% nas vendas em 2009 em relação ao ano anterior, a indústria já conta com capacidade instalada para crescimento em 2010. A expectativa do setor é de crescimento de 14% a 16% para 2010, em relação a 2009"

Melvyn Fox, presidente da Abramat (Associação Brasileira da Indústria de Material de Construção)

DivulgaÇÃo: Anamaco
Isenção pode impedir aumentos
"Esperamos que o governo prorrogue a redução de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) sobre materiais de construção. Se isso acontecer, principalmente para garantir que o programa Minha Casa, Minha Vida ganhe fôlego, a cadeia produtiva não será onerada e os preços não sofrerão aumentos em 2010. Neste momento, nossas expectativas são as melhores possíveis. O ano de 2009 fechou com um crescimento de 6,5% sobre 2008 [segundo previsão feita em dezembro], quando tivemos recorde de faturamento (R$ 43,23 bilhões). Para 2010 esperamos um crescimento nessa faixa, de 6% a 8%.

É importante ressaltar que no decorrer deste ano uma série de projetos estará em andamento - o próprio Minha Casa, Minha Vida e o início das obras para a Copa de 2014 e Olimpíadas de 2016. Tudo isso vai movimentar o setor e demandar investimentos, sobretudo de logística e capacitação de mão de obra"

Cláudio Elias Conz, presidente da Anamaco (Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção)

 

 
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