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Salários devem aumentar
Escassez de mão de obra deve ser o maior problema das construtoras em 2010

Por Ana Galli

Um dos mais antigos engenheiros da construtora curitibana Hestia Engenharia foi perdido para a concorrência em agosto de 2009. "Fizemos de tudo para mantê-lo. Mas a empresa que fez a proposta era uma construtora grande, de capital aberto, com muito poder de fogo", explica o diretor Gustavo Selig. "Ofereceram 40% de aumento para um salário que já era alto, tentamos cobrir, mas ele acabou cedendo para a concorrência."

A perda não é uma exclusividade da Hestia. O assédio do mercado a engenheiros qualificados e empregados, conhecido como "leilão de profissionais", é um problema crônico do setor nos últimos tempos de aquecimento e que tende a se gravar nos próximos meses, pressionando o valor de mercado dos salários.

Em 2008, quando do boom de obras, a alta das remunerações atingiu seu ápice. De acordo com dados do Ipea (Instituto de Economia e Pesquisa Aplicada), em apenas um ano a remuneração do engenheiro no Brasil subiu de R$ 1.500 para R$ 4.500, em média.

Ainda é cedo para arriscar perspectivas de elevação do custo da mão de obra para 2010. Embora qualquer alta dos desembolsos com pessoal seja preocupante, poder pagar e, mesmo assim, não ter quem contratar, pode ser, esse sim, o grande gargalo do ano. "Nem sempre cobrir o salário da concorrência é suficiente. Às vezes, simplesmente não há quem contratar", diz Selig.

Ele conta que, para crescer entre 50% e 70% em 2010, planeja dobrar o número de engenheiros de alto escalão. "Hoje temos três profissionais ocupando essa posição, mas precisamos de mais três. Abrimos as vagas há mais de 60 dias para esses postos e até agora [dezembro de 2009] não conseguimos preencher nenhuma", conta. O diretor explica que enquanto não consegue preencher as vagas, a saída é sobrecarregar a equipe. "Sabemos que não é uma boa saída. Há a sobrecarga da equipe, que pode ficar estressada e desmotivada, mas infelizmente não temos muitas opções."

Dados do Confea (Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia) contabilizam, em números, a escassez de profissionais constatada pelo diretor da Héstia. De acordo com o presidente da instituição, o engenheiro civil Marcos Túlio de Melo, a quantidade ideal para um país em desenvolvimento é de 20 engenheiros para cada grupo de mil pessoas. No Brasil, essa proporção está para seis profissionais apenas (veja boxe).

Outro dado, este do vice-diretor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, José Roberto Cardoso, mostra que para cada US$ 1 milhão investidos na construção civil, uma vaga para engenheiro é criada. A conclusão é que para dar conta dos US$ 300 bilhões que serão investidos tanto no setor público (em especial pelo PAC - Programa de Aceleração do Crescimento) quanto no privado nos próximos anos, será preciso contratar 300 mil engenheiros em um curto espaço do tempo. A questão que fica é: tem gente para isso?

"Por causa das especificidades dos cargos e da dificuldade de achar profissionais disponíveis, a área de engenharia é hoje uma das que mais temos dificuldades em preencher vagas", explica o recrutador de executivos de médio e alto escalão Augusto Pulitti, da consultoria Michael Page. "É preciso planejar e valorizar o profissional para não ser surpreendido pelos humores do mercado da construção civil."

Driblando a escassez

As estratégias encontradas pelas construtoras e incorporadoras para atrair e reter profissionais vão desde recrutar, de volta, engenheiros que migraram para outros setores (como financeiro, petroquímico, por exemplo), a aumentarem os salários e oferecerem bônus ou participação nos lucros para profissionais de alto escalão.

A construtora mineira Engeclam Engenharia, por exemplo, oferece planos de carreira e benefícios. "Se percebo que a pessoa quer crescer, dou a chance", diz o diretor Eduardo Moreira. Para ele, "não tem muito segredo. O importante é valorizar a pessoa. Se ele se sente bem, parte da família, não tem dinheiro que o tire daqui", acredita.

Seja qual for a saída encontrada, é bom preparar o bolso para provável aumento dos gastos com pessoal em 2010. "Não consideramos custos, mas sim investimentos. O empregado não ganha só o salário, mas também qualificação e valorização", diz o diretor da Héstia. Por lá, uma das medidas tomadas para driblar a falta de engenheiros é a formação de grupos de trainees. "Isso faz com que eles se sintam valorizados, o que é um grande passo para se manterem na empresa e futuramente, quando qualificados, ocuparem cargos que hoje são difíceis de serem preenchidos", diz Selig.

Montar um programa de trainee também foi uma das ferramentas utilizadas pela Gafisa. Em 2009, vislumbrando falta de pessoal, a empresa selecionou 40 entre 17 mil candidatos e acaba de lançar um novo site específico para recrutamento de novos funcionários.

Construtoras encontram dificuldades para contratação

A falta de mão de obra na construção civil
, em todos os níveis de escolaridade, inclusive operários, já é apontada por construtoras e incorporadoras como o principal gargalo a ser enfrentado pelo setor neste ano.

"O mais preocupante é que o Brasil inteiro está aquecido, diferentemente de 2006 a 2008, período em que as construções aconteceram em sua maioria no Sul e Sudeste do País", afirma Paulo Sanchez, diretor de engenharia da Sinco Engenharia. "Agora, estão lançando [empreendimentos] no Norte, Centro-Oeste e Nordeste e vamos precisar de muita mão de obra", completa.

Para o presidente da Even Construtora e Incorporadora, Carlos Terepins, a escassez de profissionais já é enfrentada pelas empresas. "Hoje a Even está com 55 canteiros de obras em todo o Brasil e existe notoriamente falta de engenheiros, carpinteiros, eletricistas, gesseiros etc. Ao longo deste ano, isso deve piorar muito", acredita Terepin.

 

De volta à escola

Divulgação: Engeclam Engenharia
José Roberto Cardoso, vice-diretor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo
Todos os anos cerca de 150 mil alunos ingressam em cursos de engenharia
espalhados por todo o País - número suficiente para suprir o mercado de trabalho. O que emperra é o alto índice de desistência. Apenas 32 mil se formaram em 2007 segundo o Ministério da Educação, sendo que o mercado brasileiro requer anualmente cerca de 50 mil profissionais. E é aí que a disputa entre as construtoras começa.

Segundo o vice-diretor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, José Roberto Cardoso, a raiz do problema está no ensino médio. É nesse período que o conhecimento básico de matemática, física e química, principais matérias estudadas por engenheiros, é ensinado. Ou deveria. "Se o aluno sai sem a base necessária de conhecimento da escola, dificilmente conseguirá concluir o curso", diz. "O cenário mostra que precisamos investir em educação. Do contrário, em pouco tempo o crescimento do Brasil ficará prejudicado pela falta de profissionais. Sem engenheiros as obras param e o Brasil também", afirma Cardoso.

 

A escassez em números

De acordo com o presidente do Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia, o engenheiro civil Marcos Túlio de Melo, a quantidade ideal para um país em desenvolvimento é de 20 engenheiros para cada grupo de mil pessoas.

O Brasil está bem abaixo da quantidade ideal. A comparação pode ser feita com outros países emergentes:

País em desenvolvimento

Engenheiros/mil habitantes

Engenheiros formados em 2007

Coreia do Sul

25

80 mil

China

25

400 mil

Índia

22

200 mil

Brasil

6

32 mil

Fonte: Confea, OCDE e vice-diretoria da Poli-USP

 

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Leia matéria da edição de dezembro de Construção Mercado que alertava sobre o aquecimento nas contratações e o risco do aumento de salários.

 

 
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