Materiais: planeje-se para alta da demanda Saiba como se comportarão o abastecimento e os custos dos principais insumos da cesta básica da construção no mercado aquecido de 2010
Por Telma Egle
A indústria fornecedora opera hoje com uma capacidade de produção em torno de 80%, margem que deve beirar os 85% nos próximos 11 meses, segundo a Abramat (Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção). Embora haja, nesse cálculo, um fôlego de 15%, a alta do consumo de materiais previsto para este ano, frente ao boom de obras que se anuncia, preocupa construtoras e incorporadoras quanto ao abastecimento e custo dos materiais. A seguir, agentes do setor de cimento, de blocos cerâmicos e de concreto, aço, caixilhos de alumínio e de PVC, além de fôrmas e escoramentos analisam as tendências para 2010.
Blocos de concreto "A indústria de blocos de concreto está otimista sobre o atendimento da demanda para 2010. Com uma procura intensificada - e produção idem - imagina-se um provável aumento de preços, mas não se podem prever percentuais e a variação não deve abalar o mercado. Os fabricantes trabalham com uma fórmula paramétrica para chegar ao valor final de venda e o aumento de custo das matérias-primas (cimento, areia, pedra, frete, diesel) atua como fator de pressão para a produção dos blocos de concreto. Segundo índices do Sinaprocim (Sindicato Nacional da Indústria de Produtos de Cimento) e do Sinprocim (Sindicato da Indústria de Produtos de Cimento do Estado de São Paulo), o preço de venda dos blocos de vedação subiu, entre dezembro/03 e outubro/09, 80%, e dos blocos estruturais, 100%. Esses valores tentaram acompanhar, no mesmo período de seis anos, a curva de encarecimento dos insumos como o cimento (cujo preço subiu 16%), pedra (160%) e areia (100%)"
Carlos Alberto Tauil, consultor da Associação Brasileira da Indústria de Blocos de Concreto - Bloco Brasil
Blocos cerâmicos "Para 2010, não enxergo aumentos de preço acima dos reajustes comuns. Como a indústria de blocos cerâmicos reúne cerca de 5,5 mil empresas em todo o País, o principal regulador de preços é o próprio mercado, aliado às novas obrigações e encargos que foram criados ao longo dos anos. Antes de se falar em aumento real de preços é preciso recuperar os valores perdidos em uma década, pois a construção civil viveu grandes oscilações durante esse período. A consequência foi o baixo investimento nas indústrias da cadeia produtiva, principalmente nas pequenas empresas, que são a maioria dos fornecedores da construção civil. Isso implicou diretamente uma baixa produtividade, impactando os custos e margens de lucro, que se tornaram mínimos. Se somarmos tudo isso ao aumento da carga tributária, direta e indireta, e das obrigações ambientais e trabalhistas, vamos perceber que realmente precisamos dessa adequação nos preços para manter as exigências de qualidade e formalidade de nossos produtos"
Luis Lima, presidente da Anicer (Associação Nacional da Indústria Cerâmica)
Cimento "Sobre o aumento dos preços para 2010 é difícil prever qualquer margem. O que regula o cimento é o mercado, com suas variáveis. E a pressão dos custos (frete, combustível e energia) existe independentemente disso. As despesas com combustíveis e energia elétrica representam mais de 50% na formação do custo direto de produção em uma fábrica de cimento. O produto é uma commoditie de baixa substitutibilidade. Sobre a demanda, a estimativa é que o aumento do consumo seja de aproximadamente 6% em relação aos últimos três anos, considerando os programas habitacionais e as obras da Copa de 2014"
José Otávio de Carvalho, vice-presidente executivo do SNIC (Sindicato Nacional da Indústria do Cimento)
Aço "O principal gargalo na demanda do aço poderá ser a formação de pessoal especializado, mas investimentos e parcerias com o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) e as universidades vêm sendo desenvolvidos proativamente para fortalecer a competitividade da construção em aço. A indústria brasileira de aço está preparada para atender à demanda prevista pelos chamados programas especiais (petróleo e gás, Copa 2014 e Olimpíadas). São muitos os tipos de construções que serão necessárias e o desafio será mobilizar e modernizar o País dentro de um rigoroso cronograma de obras. É a oportunidade de um grande salto de modernidade"
Catia Mac Cord, gerente-executiva do CBCA (Centro Brasileiro da Construção em Aço)
Caixilhos de PVC "O setor produtivo está preparado e capacitado para um possível aumento da demanda. Não prevemos gargalos em função da capacidade produtiva das empresas produtoras de esquadrias de PVC. A matéria-prima PVC é uma commoditie e, portanto, tem seu preço regulado de acordo com o comportamento do mercado internacional. Porém, como as economias nos mercados externos ainda se recuperam da última crise, essa lenta recuperação deve se manter durante este ano, minimizando possíveis impactos. Outros fatores possíveis de pressão aos preços são as variações do dólar e do petróleo, além das oscilações no custo das ferragens (aço e alumínio), usadas nas esquadrias de PVC. Comparados 2008, os valores de venda das esquadrias de PVC ficaram praticamente estabilizados em 2009: as variações foram pequenas, pontuais e sempre estiveram relacionadas ao movimento individual de cada fabricante"
José Carlos Rosa, diretor executivo da Afap PVC (Associação Brasileira dos Fabricantes de Perfis de PVC)
Caixilhos de alumínio "Nos últimos dois anos, foi significativo o número de indústrias de esquadrias que ampliaram sua capacidade instalada. Porém, atualmente, a capacidade produtiva das empresas da cadeia produtiva de esquadrias está plenamente ocupada, retornando aos níveis registrados antes da crise econômica internacional. Fato que se soma à concessão de reajustes reais dos salários da mão de obra do setor. Esses fatores sugerem que em 2010 o preço do caixilho de alumínio poderá sofrer aumento, mas prever percentuais é um exercício complexo. Em primeiro lugar, seu insumo básico, o alumínio, tem seu preço cotado internacionalmente e é preciso aguardar o comportamento da construção civil na China que, mantida a atual expansão, vai continuar pressionando o preço das commodities. Na composição dos custos de fabricação das esquadrias somam-se também componentes como acessórios e vidro. Interferem ainda a taxa do dólar em relação ao real e o que chamamos de Prêmio, o valor adicionado ao custo do alumínio primário (lingote, tarugo, chapas, perfis). As oscilações, porém, não são repassadas ao preço do perfil extrudado pelas indústrias que operam no Brasil e muito menos pelos fabricantes de esquadrias de alumínio. Por tudo isso, é realmente difícil prever percentuais de aumento dos caixilhos"
Edson Fernandes, gerente nacional do Programa Setorial de Qualidade de Esquadrias de Alumínio da Afeal (Associação Nacional dos Fabricantes de Esquadrias de Alumínio)
Fôrmas e escoramentos "Não vejo uma pressão muito expressiva do mercado que possa influenciar os custos no setor de fôrmas e escoramentos. Provavelmente os preços de venda devem ter uma recuperação no mesmo patamar alcançado em 2008, o que já consideramos uma grande vitória. Se a demanda aumentar, nossa indústria estará preparada para atender. Acredito que a mão de obra sim poderá ser um gargalo. Aconselho as construtoras que decidirem investir seu capital de maneira antecipada no mercado que sinalizem os fornecedores sobre o comportamento de sua demanda. Dessa maneira, os fornecedores poderão se preparar melhor para atender com a possibilidade de repasses de preços mais camaradas"
Haroldo Miller Jr., presidente da Abrasfe (Associação Brasileira das Empresas de Fôrmas e Escoramentos)