O novo cenário de retomada do crescimento do mercado imobiliário impõe o desafio de aumentar a velocidade e o volume de construções sem comprometer o controle da qualidade das obras e do ciclo de produção dos empreendimentos. Tarefa nada simples se levados em conta os potenciais gargalos do atual cenário de aquecimento:
Escassez de mão de obra qualificada (que, em casos extremos, pode levar empresas a posicionarem trainess ou jovens engenheiros em postos estratégicos na condução das obras)
Aumento expressivo da demanda por insumos e equipamentos (que pode provocar desabastecimentos pontuais ou queda na qualidade de produção dos produtos)
Aumento do custo de capital e de produção (ensejando improvisos de toda ordem nos canteiros para abater despesas de forma não planejada)
Redução dos prazos de projeto e de construção, e pressão de incorporadoras sobre construtoras para entrega apressada de edificações
Todos esses problemas foram constatados durante o boom de obras de 2007 e 2008. Além de implicar danos ao desempenho e à durabilidade das edificações, falhas de qualidade resultam em futuras patologias construtivas que, por sua vez, acentuam os custos de manutenção e interferem negativamente na imagem da empresa.
Em momentos de atividade intensa como a que o Brasil deve passar nos próximos anos, o consultor Roberto de Souza, presidente do CTE (Centro de Tecnologia de Edificações), recomenda atenção à aplicação constante do ciclo PDCA - que começa pelo planejamento, depois à execução do conjunto de ações planejadas e, em seguida, à checagem da execução conforme o previsto. Por fim, elaboram-se ações para eliminar ou mitigar defeitos no produto ou na execução.
Segundo Souza, em períodos de aquecimento, ferramentas de tecnologia da informação, de planejamento de obras, de elaboração de projetos de produção e de padronização de serviço são costumeiramente abandonadas por gestores sob o argumento de que "não há tempo a perder". "Muitas vezes vemos gestores sem tempo para se dedicar à análise dos problemas, encontrar soluções e orientar suas equipes", diz.
Segundo ele, também podem ser notadas deficiências na qualificação dos profissionais e falta de orientação aos novos engenheiros, mestres, encarregados e operários de obras sobre a importância do sistema de gestão da qualidade.
"Nos últimos anos, as construtoras passaram a dispor de excelentes fotografias de suas obras com a aplicação de indicadores mensuráveis, listas de verificação para inspecionar a qualidade de materiais e serviços, bem como de controles ambientais e de segurança para monitorar processos e mitigar riscos e impactos. Só que hoje essas fotos estão sendo tiradas às pressas, sem foco", comenta Roberto de Souza.
"Ter um diretor ou gerente que não conheça o que deve ter um efetivo sistema de gestão da qualidade e que não saiba aplicar isso na prática como gestão é o primeiro passo para a empresa não conseguir manter a qualidade", lembra a engenheira Maria Angélica Covelo Silva, diretora da NGI Consultoria. Na lista de recomendações da consultora, destaca-se "a necessidade de fazer avaliação dos prazos físicos de serviços e dos prazos técnicos", e de aperfeiçoar constantemente o sistema da qualidade.
Em outras palavras, ainda há uma enorme diferença entre identificar os desvios de qualidade e promover ações corretivas, preventivas e de melhoria - imperativas em tempos de aquecimento. O alerta vale para empresas de todos os portes.