 |
| Haruo Ishikawa |
O setor da construção civil, embora cresça em escala industrial, ainda gerencia seu capital humano numa perspectiva artesanal: de canteiro em canteiro, do mestre de obras ao servente, distante de uma organização setorial nacional e formalizada. A avaliação é de Haruo Ishikawa, vice-presidente de relações capital-trabalho do SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo).
Ainda assim, ele se mostra otimista. "Estamos confiantes de que conseguiremos resolver esse problema da escassez da mão de obra formando gente nos canteiros", afirma. Um dos fatores que motiva o engenheiro é um recente acordo firmado entre o sindicato e o Senai-SP (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) que pretende inverter a logística dos treinamentos da principal instituição de ensino do setor: em vez de as empresas terem de se organizar e tirar pessoal da obra para levá-los ao Senai - assumindo com isso os custos de transporte e de baixa da produtividade -, serão os professores do Senai que migrarão para as instalações das construções, qualificando trabalhadores já empregados.
Nesta entrevista, Ishikawa afirma também que a tendência de encarecimento dos custos com salário é real e, inclusive, um atrativo para conquistar a fatia de 45% dos trabalhadores da construção civil que ainda operam na informalidade. Confira.
Há como resolver a escassez de mão de obra no Brasil?
A escassez de mão de obra é grande porque queremos imediatamente o profissional qualificado, o que é muito difícil encontrar, em todas as áreas. A escola da construção civil é muito pequena para o volume de trabalhadores que se tem no País. O que o setor de construção civil sempre fez foi contratar profissional não qualificado, que é o servente, e bancar a qualificação no canteiro de obra. Lidamos com um cenário de mão de obra muito atípico, diferente de qualquer outro mercado. Ainda assim, estamos com o pé no chão, confiantes de que conseguiremos resolver esse problema da escassez da mão de obra formando gente nos canteiros.
Por quê? Há planos setoriais para formalizar a instrução no canteiro de obras?
Essa é uma grande dificuldade do setor, pois a única formalização que temos no canteiro de obras para determinar se o profissional é ou não qualificado são os registros na carteira de trabalho. Para contornar isso, o Senai aprovou uma proposta do SindusCon-SP para criação de canteiros-escola. De fevereiro a maio de 2010, vamos ter pilotos em cinco canteiros de obra no Estado de São Paulo, com instrutores do Senai. Nesses pontos, que ainda serão definidos, as empresas serão responsáveis por disponibilizar um espaço para os cursos. A ideia é unir o SindusCon-SP, que tem cerca de dez mil filiados da construção civil, e o Senai para garantir agilidade na formação dos profissionais do setor. Pretendemos ter o projeto formatado até março de 2010. A partir daí, vamos captar recursos junto aos canteiros de obra. Em São Paulo, só existem dois Senai's voltados para qualificar mão de obra da construção civil - um em Tatuapé e outro em Bauru. É pouco para a demanda. E esse programa poderá dar mais agilidade ao processo de qualificação.
Quais as atividades prioritárias do programa?
Nesse primeiro momento, elegemos quatro áreas críticas: pedreiro, carpinteiro, armador e pintor. Depois vamos desenvolver cursos para outras áreas. O interessante desse projeto é justamente qualificar um público que já trabalha com carteira assinada. A perspectiva é que esses profissionais continuem nos canteiros de obra. Quanto mais qualificado, maior o salário.
Os salários já estão maiores, não? Os custos com pessoal continuarão subindo? Quem pagar mais leva?
O aumento salarial tem a ver com demanda, claro. E a tendência é que os valores subam sim. Se uma construtora tem um profissional qualificado, vai querer mantê-lo. Para se ter uma ideia, o menor piso salarial do setor em São Paulo, que é o do servente, é R$ 767,80, fruto de uma convenção assinada em maio de 2009. Isso representa um aumento de 65% em relação ao salário mínimo estabelecido em maio do ano passado. Além disso, o trabalhador da construção civil trabalha por produtividade. O profissional qualificado, que é o carpinteiro ou pedreiro, tem piso salarial de R$ 917,40, mas a maioria ganha em torno de R$ 1.500,00 ou R$ 1.600,00. É um salário razoavelmente bom, se compararmos com o mercado em geral, onde muitos trabalhadores brasileiros não ganham um salário mínimo. Esse é o grande atrativo da indústria da construção.
Em concorrência com que setor?
Com o de autoconstrução, por exemplo. De 2008 a 2009, o Senai de São Paulo treinou cerca de 32 mil trabalhadores, mas muitos acabam não entrando na indústria da construção civil e, sim, na informalidade, tocando "puxadinhos". São profissionais que imaginam que atuar por conta própria dá mais dinheiro do que trabalhar com carteira assinada. É quase um "efeito colateral" do aumento de renda e da ampliação de acesso ao crédito: as pessoas começaram a investir mais na reforma de casas. No entanto, também começamos a observar profissionais que saem da informalidade para ter carteira assinada.
Existe algum plano setorial para atrair as parcelas minoritárias de trabalhadores desse setor, que são as mulheres e os jovens?
Está acontecendo naturalmente. Hoje, há muitas mulheres nas escolas e nos Senai's. Minas Gerais é o Estado que tem mais mulheres trabalhando nos canteiros de obra. Não há um incentivo, um plano. A própria expansão do setor está cuidando disso. Há uma observação importante: a mulher que chega ao mercado, já chega qualificada. E encontra seu espaço.
Se os custos com mão de obra estão subindo e se a mão de obra é desqualificada, a industrialização dos canteiros não seria uma solução?
O processo de industrialização dos sistemas construtivos já vem acontecendo há muitos anos. Existem vários tipos de novas atividades e tecnologias que já estão sendo aplicados na construção civil. As mudanças tecnológicas são necessárias, mas mesmo que a tecnologia reduza a quantidade de mão de obra, ela exige uma qualificação maior dos profissionais. Um exemplo é o caso do drywall, que é parede de gesso, está em quase todas as novas construções do Estado de São Paulo. Há 15 anos, quando o drywall chegou ao mercado brasileiro, a própria empresa que fornecia o produto treinava o trabalhador. Assim, agilizou-se a qualificação. Esse processo já está em andamento - a própria indústria cuida da qualificação.
É impressionante ver como um problema como o da escassez de pessoal, que o setor já havia enfrentado e conhece muito bem, voltou novamente. Por que esse problema, tão recorrente, não é resolvido?
É recorrente porque o setor normalmente responde muito rápido à questão da empregabilidade. No fim de novembro de 2009, fomos parceiros da Fundação Getúlio Vargas, que fez uma estimativa de crescimento do PIB da construção civil para 2010, de 8,5%. Em cima dessas projeções, esperamos a contratação de 180 mil trabalhadores no País. Empregos diretos, com carteira assinada. O Estado de São Paulo representa de 30% a 35% disso. Em outubro de 2009, tínhamos no Brasil 2.327.566 trabalhadores na construção civil com carteira assinada. Se pegarmos uma estimativa de 2008, época de crise, até outubro de 2009 tivemos um saldo positivo de contratação de 136.526 trabalhadores em 12 meses. O crescimento é muito grande.
Emprega muito e rápido, mas falta qualificação profissional.
Sim. Se avaliarmos esses 2.377.566 trabalhadores com carteira assinada e fizermos uma pesquisa para saber se há qualificação profissional em carteira escolar, provavelmente teremos um resultado muito pequeno. Mais de 90% desses profissionais foram qualificados no próprio canteiro de obras. O desempregado de qualquer área arruma emprego na construção civil. O semianalfabeto pode ser contratado como ajudante, basta ter uma pequena habilidade. A formação é feita desse jeito. O servente pode dizer para o mestre de obras que quer ser pedreiro. Então, ele é alocado para trabalhar com os pedreiros, e assim por diante.
Há relatos de que algumas construtoras, por conta da escassez de baixa qualificação, são levadas a tocar suas obras mesmo sem mão de obra especializada. Essa situação é real?
Acho muito improvável que construtoras se arrisquem dessa maneira. Dificilmente uma empresa vai iniciar uma obra com um profissional não qualificado. Um médico que comete um erro mata uma pessoa. O engenheiro que cometer um erro grave mata milhares de pessoas. A responsabilidade é muito grande.