A engenheira Maria Angélica Covelo, consultora do NGI (Núcleo de Gestão e Inovação), tem ministrado cursos em diversas capitais brasileiras e orientado construtoras como Cyrela, Gafisa, Tecnisa, Tecnum, Tarjab e BKO Engenharia na aplicação da Norma de Desempenho (ABNT NBR 15.575), que entra em vigência dia 12 de maio.
Nesta entrevista, a consultora relata as implicações técnicas e de custo da normativa, além dos efeitos sobre a gestão estratégica para as empresas de construção civil. Para Maria Angélica, que também é coordenadora técnica do Comitê de Tecnologia e Qualidade do SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo), a norma é um divisor de águas. Confira.
A Norma de Desempenho [ND] ainda é desconhecida por muitos agentes do setor, não?
Há empresas que já conhecem a Norma, já ouviram falar e querem uniformizar o conhecimento de suas equipes para depois capacitá-las para as demandas do atendimento. Até por serem líderes - e liderança não está ligada necessariamente ao tamanho de empresa -, elas sabem que serão mais cobradas pelo consumidor e estão se mobilizando para valer.
Existe um segundo time de empresas e até de entidades de classe que ainda não conhece a Norma. Em verdade, há um desconhecimento geral sobre a responsabilidade no atendimento de normas no Brasil. O atendimento da ND não será imediato e uniforme, será um processo.
Se as líderes atenderem e a grande maioria das empresas não, a Norma de Desempenho pode ser usada como reserva de mercado?
A Norma de Desempenho estabelece pela primeira vez no País um patamar mínimo para a construção abaixo do qual se considera que a empresa, se não cumprir, não tem nível técnico adequado. É um divisor de águas mesmo. Uma cerâmica mal-assentada num edifício pode matar uma pessoa.
Um guarda-corpo que não aguenta o que devia mata uma pessoa. Será que a construção civil, que no fim das contas lida com a vida das pessoas, é um setor onde não tenha que haver uma capacitação mínima para se trabalhar nele? Se você quiser montar um hospital, terá que atender minimamente às exigências da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
Mas se eu me formar hoje e amanhã abrir uma sala num conjunto e sair construindo um edifício de 30 andares, eu posso; contrato um engenheiro, um projeto e por aí vai. Nada me impede. As barreiras de entrada na construção civil são muito frágeis.
Mas os requisitos mínimos da Norma não são altos demais para a realidade brasileira?
Esses questionamentos sempre surgem. Também dizem: "Não podemos comparar a realidade brasileira com a estrangeira". Mas para alguns itens da Norma, como o acústico, é até vergonhoso a gente dizer para qualquer outro País o quanto se está permitindo no Brasil, ou seja, até 80 dB de pressão sonora, enquanto na média nos outros países se admite no máximo a metade disso.
E mesmo assim a questão acústica parece ser o item mais polêmico da Norma, para as construtoras.
Porque nunca demos bola para isso. As normas anteriores à de desempenho não foram levadas em conta porque nunca foram realmente uma exigência do consumidor. A base das exigências de desempenho acústico da ND vem da Organização Mundial da Saúde porque existe um limite a partir do qual o ser humano começa a ter distúrbios em função do ruído.
Não ter isolamento adequado é considerado uma questão de saúde pública. Então não se pode dizer que tudo isso é exagerado. Não importa a localidade do edifício e a classe social do consumidor, todos têm as mesmas necessidades como ser humano.
Mas as construtoras dizem que simplesmente não há caixilhos que atendam aos requisitos da Norma e que caibam, por exemplo, nos custos de imóveis econômicos.
Estamos diante de um problema de inovação e desenvolvimento tecnológico. Se não há solução viável economicamente, é preciso buscar inovação e desenvolvimento tecnológico.
Não dá para o setor se desenvolver dizendo não tem solução para isso, "então se conformem, consumidores, a ter uma casa com barulho". É uma questão de chamar a indústria, organizar a cadeia e desenvolver. Há várias universidades que têm pesquisa nessa área, há a indústria, os projetistas. Temos que achar a solução.
Pode-se concluir que mesmo para as construtoras que estão se esforçando para atender a Norma, talvez o cumprimento dos requisitos acústicos em imóveis econômicos, pelo menos até novembro, não será real?
Talvez em novembro de 2010 não. Mas as construtoras e os fabricantes não poderão ficar parados. Eles terão que dialogar. E isso envolve desde o fabricante de perfil até o fabricante do componente de fato e de todos os subcomponentes de caixilhos.
A Norma de Desempenho poderá aumentar os custos das construtoras?
Ninguém ainda aplicou inteiramente a Norma de Desempenho. Então ninguém se deparou com os pontos críticos de atendimento, por exemplo, no segmento econômico. Em relação a custos, podemos dividir a Norma em duas partes: os itens em que ela não traz nada de novo em termos de como solucionar (e só se remete integralmente a normas existentes) e outro conjunto de requisitos que são completamente novos ou trazem a exigência de atender normas que já existiam, mas que nunca ninguém deu atenção.
Na primeira situação, um projeto que atenda a norma de projeto de estruturas e as demais, de cargas etc., está em condições de atender integralmente todos os requisitos que a ND estabelece na parte 2. Para esse item, haverá custos adicionais apenas para as empresas que ainda não estão adequadas às normas básicas existentes, coisa que no Brasil existe muito.
E quanto ao outro conjunto de itens inaugurados ou reforçados pela ND?
Aí será preciso identificar quais deles podem ser demonstrados em projeto e o que precisará de ensaio. Exemplifico: os requisitos sobre desempenho térmico referem-se a três partes da NR 15.220, em vigor desde 2005. Nessa norma ficam definidas todas as zonas bioclimáticas brasileiras e as estratégias construtivas (de projeto, implantação, ventilação, insolação etc.) a serem usadas em cada uma delas para proporcionar o desempenho térmico adequado àquela condição.
Embora essa norma exista, poucas pessoas a conhecem. Agora, como a Norma de Desempenho estabelece critérios baseados em zonas bioclimáticas e desempenhos no inverno e no verão, essa questão, que ninguém dava bola, passa a ser importante.
PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >>