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Erros e acertos
Diretor de construtora responsável pela edificação de estádios da Copa do Mundo de 2010 não esconde problemas enfrentados pela África do Sul na preparação do evento, mas diz como eles foram contornados

Por Ubiratan Leal

Acervo pessoal
Um alto dirigente da Fifa, entidade internacional que organiza os campeonatos de futebol, declarou com todas as letras que o Brasil está muito atrasado nos preparativos para a Copa do Mundo de 2014. Uma revista de circulação nacional publica que a Inglaterra estaria de sobreaviso para o caso de os brasileiros não se aprontarem a tempo para o torneio. O setor da construção também é taxativo ao alertar para a demora nas obras de estádios e infraestrutura. Nesse momento de preocupação, é importante considerar o que Danny Quan tem a dizer.

O diretor de desenvolvimento de negócios da Grinaker-LTA, construtora responsável pelas obras dos estádios Soccer City, Orlando Stadium e Nelson Mandela, do Mundial que a África do Sul organizará entre junho e julho deste ano, viveu de perto alguns desses problemas. Os sul-africanos conviveram com greve de trabalhadores da construção civil, tiveram de recorrer a empresas e fornecedores estrangeiros para ter boa parte da tecnologia e do know-how, viram uma cidade ser excluída de um evento preparatório (Port Elizabeth em relação à Copa das Confederações de 2009) e admitiram que parte da infraestrutura de transporte será finalizada apenas depois do maior evento esportivo do mundo. Isso tudo não impediu que o torneio seja realizado, e que os estádios tenham sido finalizados sem grandes sustos.

Segundo Quan, não houve grandes inovações para evitar problemas mais graves. "A construção de estádios para a Copa segue os parâmetros de uma obra racionalizada", comenta. "Mas é preciso tratar cada elemento com mais atenção que o normal, pois os equívocos são potencializados e podem se tornar fatais." Nesse contexto, os dois fundamentos mais significativos seriam o planejamento, para estar sempre um passo à frente dos problemas, e uma eficiente comunicação entre os diversos agentes envolvidos - construtores, projetistas, trabalhadores, poder público e Comitê Organizador do evento.

Em entrevista à revista Construção Mercado, Quan fala sobre como o sul-africanos aprenderam com seus próprios erros e acertos. E dá pistas de como os brasileiros podem fazer o mesmo para contornar seus problemas nos próximos quatro anos.

Quais foram os principais desafios encontrados para construir a infraestrutura do Mundial na África do Sul?

Foram vários, em diversas áreas. Primeiro, não havia disponibilidade de mão de obra e mesmo de técnicos para a produção. Depois, por causa dos prazos apertados, houve problemas comerciais causados pela aceleração na elaboração de contratos e documentações. Por fim, tivemos de enfrentar uma crise econômica mundial e questões do próprio mercado interno, que causaram inflação significativa nos custos da execução. Tudo isso, claro, com tempo curto e tentando antecipar o mais possível a finalização das estruturas dos estádios.

O prazo das obras já é uma preocupação do Brasil para a organização da Copa de 2014. Não foi muito diferente na África do Sul. Port Elizabeth deixou de receber a Copa das Confederações por atraso na entrega do estádio e houve greve de trabalhadores da construção civil. O que foi feito para recuperar o tempo e, apesar de tudo, ter todos os estádios prontos meses antes do Mundial?

Foram soluções mais administrativas e gerenciais do que propriamente técnicas. Tivemos de usar mais horas extras e recursos financeiros, logicamente, mas foi fundamental redobrar o cuidado no planejamento e na contratação de equipes multidisciplinares competentes. E, para completar, só foi possível acelerar o ritmo depois de um grande trabalho de recursos humanos, chegando a acordos com os sindicatos dos trabalhadores e das indústrias de construção.

Esses problemas afetaram as obras do Soccer City, projeto mais ousado e custoso do Mundial?

Curiosamente, no meio disso tudo, o Soccer City foi o estádio em que tivemos menos problemas, mesmo sendo a obra mais desafiadora. E isso deixou todos nós particularmente orgulhosos. É um estádio de 90 mil lugares construído em 36 meses, contando do momento em que nem tínhamos projeto executivo. Como comparação, o estádio de Wembley, em Londres, e o Ninho de Pássaro, em Pequim, levaram 24 meses a mais.

Como foi a comunicação entre a Fifa, o Comitê Organizador da Copa 2010 e as empresas de projetos?

Poderia ter sido melhor, mas, no final, a comunicação foi adequada. Se as decisões fossem tomadas mais rapidamente, possivelmente teríamos uma redução de custos.

Por exemplo?

Sem dar muitos detalhes, mas, no Soccer City a prefeitura entrou em contato direto com o Comitê Organizador, que passou as informações aos arquitetos e gerentes de projetos. O contato poderia e deveria ter sido direto com os projetistas. Isso não foi muito bom e causou alguns problemas, especialmente na reta final da obra.

Sediar uma Copa do Mundo gera um grande investimento em obras e demanda uma enorme quantidade de mão de obra. A Copa criou um boom de empregos na construção na África do Sul?

Sim, a construção de estádios e o incremento da infraestrutura certamente contribuíram para um boom na construção. Não tenho números oficiais, mas sei que o mercado se antecipou a esse movimento e já havia se articulado para atender aos requisitos necessários.

Houve algum programa especial para treinamento da mão de obra?

Em Johanesburgo, cidade que concentra a maior parte da infraestrutura da Copa e receberá a abertura e a decisão, foi criada uma escola de treinamento de mão de obra. Um trabalho em conjunto dos construtores com o ministério do trabalho. Foram preparados 750 profissionais que nunca haviam trabalhado na construção civil. Foi um grande sucesso pelas pretensões do programa.

A construtora Grinaker-LTA trabalhou com GMP, SBP e Stadiumbou, escritórios alemães com experiência em projetos de arenas modernas na Europa. De que modo o conhecimento deles foi importante para atender às exigências técnicas da Fifa?

Essas empresas estrangeiras têm excelente conhecimento e compreensão das exigências de projeto e execução para esse evento. Eles foram de grande ajuda em assumir algumas das partes mais complexas do projeto, como cobertura, construção do gramado, gerenciamento de acessos, distribuição de setores e prevenção de desastres.

Houve algum tipo de trabalho com a indústria sul-africana para fornecer os materiais e tecnologias necessários para as obras?

Não foi preciso. A indústria local foi responsável principalmente por fornecer materiais de construção convencionais e os painéis pré-fabricados da fachada do Soccer City. Outros serviços e materiais ficaram a cargo de empresas estrangeiras.

Então essa demanda por grandes projetos na África do Sul não resultou em significativo salto tecnológico?

Na verdade, não. Pelo menos nos estádios. Até porque, tecnologicamente falando, a grande inovação dos estádios do Mundial são as coberturas. Mas todas elas foram passadas para empresas estrangeiras, que as fizeram de acordo com especificações de projeto e material - no caso, o aço - internacionais.

Para quem trabalha em projetos ligados à Copa, quão importante é gostar de futebol ou conhecer arenas esportivas?

O ponto de partida do trabalho é compreender a magnitude do evento e o nível de exigência que há em cima da infraestrutura e dos estádios. E não é só na edificação em si, mas também a demanda por tecnologia de instalações e de dados. Conhecer um Mundial e ter tido contato com arenas é fundamental para compreender isso tudo com antecedência e identificar o tamanho da empreitada já no início.

Quais os parâmetros mais importantes para os projetos da Copa do Mundo?

São os parâmetros básicos de uma obra convencional racionalizada, mas que devem ser tratados com muito mais atenção que o normal, pois os equívocos são potencializados e podem se tornar fatais. Mas, para apontar dois fatores, é fundamental disponibilizar os recursos técnicos, financeiros e humanos para estar sempre um passo à frente e assegurar uma adequada coordenação entre os responsáveis pelos diversos projetos.

Considerando que Brasil e África do Sul são países em desenvolvimento, o senhor acha que a experiência sul-africana em 2010 pode ser útil ao Brasil em 2014?

Ficaríamos felizes em ajudar o programa brasileiro para construção de estádios, fazendo parceria com construtores brasileiros. Acreditamos que podemos realmente ajudar.

Que dica você daria a quem está trabalhando em projetos ligados ao Mundial?

Primeiro de tudo, use pré-moldados sempre que possível. Além disso, o planejamento é vital em todos os níveis: coordene com atenção a comunicação entre as equipes de projeto e de execução e antecipe o máximo possível a resolução dos pontos críticos da obra.

 
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Edição 107
Maio/2010
     
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