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| "Para aqueles que têm resistência ao aumento de escala, um recado: essa resistência atrapalha o bom desenvolvimento do mercado. Médias, tornem-se grandes, há oportunidades de fusão" Fernando Camargo |
As tomadas de decisão na área de construção civil estão intrinsecamente vinculadas ao desempenho econômico do País. Nos últimos meses, essa relação está ainda mais estreita: obras de toda ordem representam hoje a força-motriz da recuperação econômica brasileira. É das boas oportunidades dessa relação que fala o economista Fernando Camargo, diretor das áreas de investimento e finanças corporativas e de inteligência de mercados intermediários da LCA Consultores. Para Camargo, os sinais da volta do crescimento tanto do Brasil quanto da construção civil brasileira são claros. "Essa retomada não é um susto ou fruto de uma política conjuntural, ela é sustentável", diz. Confira.
Dá mesmo para dizer que a crise passou?
Existe uma retomada do crescimento. Essa retomada não é um susto ou fruto de uma política conjuntural, ela é sustentável. O que voltou foi o nível de confiança. Com juros baixos, o financiamento de longo prazo vai aumentar, o risco do spread será afastado e, com isso, o crescimento da economia é garantido.
E se o PIB for positivo, o PIB da construção civil, que não depende da exportação, virá numa média maior?
Certamente. Há muitos motivos que nos levam a acreditar que o mercado de construção está em franca expansão. Em termos qualitativos, um fator que embasa essa análise é que o juro real está excepcionalmente baixo. Há muitos anos o País não conseguia praticar juros reais de 5% de forma não pontual, não conjuntural e, sim, sustentável. Há uma estabilidade monetária, a inflação está sob controle, o câmbio está, inclusive, com tendência de apreciação (dólar ficando mais barato) - o que permite até reduzir mais os juros, embora o Banco Central seja cauteloso nesse sentido. Há um tempo, numa situação de crise, o Brasil tinha que elevar os juros e fazer economia de gasto público. Hoje, é o contrário: os juros baixaram e o dispêndio do governo tem sido muito expressivo. A crise de confiança não se transformou numa crise de crédito.
Há riscos de novo boom e, com ele, todas as consequências de escassez e alta de preços?
Os indicadores de nível de ociosidade da indústria (que medem a utilização da capacidade instalada) não mostram isso. Hoje a capacidade não está plenamente ocupada. Na indústria da construção civil, os níveis de ociosidade aumentaram no final do ano e voltaram a subir em 2009, num ritmo até mais rápido do que na média da economia. Ainda assim, estamos longe dos patamares de setembro e outubro. O risco de o limite da capacidade ser atingido existe apenas para alguns setores fabricantes, principalmente aqueles que sabiam que precisariam expandir, que começaram a se preparar, mas foram interrompidos pela crise. Aquele investimento foi parado e, de fato, não vai voltar até segunda ordem.
Que segmentos são esses?
Algumas empresas estão tomando decisões com base em resultados globais. Como a média global ainda está ruim, isso vai dificultar a decisão de continuar investindo mesmo com o Brasil crescendo. Isso pode fazer com que se retardem as decisões de investimento, daí o risco. Mas não existe risco para curto prazo e nem para todos os setores de materiais de construção.
Deve haver aumento de preços dos insumos neste segundo semestre?
Em vários setores tem havido uma descompressão, sem pressão inflacionária. Com uma retomada de demanda mais consistente, os reajustes voltarão, mas só mais para frente e nada preocupante como foi no ano passado. Alguns produtos são sensíveis à cotação internacional - como o aço, alumínio, cobre. Esses são itens cujos preços não vão subir com muita facilidade, pelo menos enquanto o panorama internacional não voltar a performar positivamente.
Essa retomada do crescimento vale para todos os segmentos da construção?
A retomada que mencionei refere-se exclusivamente à construção habitacional. Embora o governo tenha liberado recursos do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para imóveis de médio padrão, vem acontecendo uma guinada para o segmento de baixo padrão. Os investimentos têm sido predominantemente focados para projeto e construção de condomínios residenciais para faixas de renda de até dez salários mínimos e, no outro extremo, para projetos de padrões elevados, acima de R$ 500 mil a R$ 1 milhão - essa faixa de renda também não foi em muito afetada pela crise.
Então, concentrar a atuação na baixa renda é uma estratégia?
O segmento de baixa renda vai trazer volume e, por isso, é um caminho positivo. Mas é importante também não descuidar do alto padrão, que é sempre dinâmico em qualquer conjuntura, é sofisticado e sempre tem produto novo.
Como as construtoras que querem entrar nesse mercado econômico devem agir?
É importante trabalhar com capacidade financeira de poder de compra e isso se trabalha com escala produtiva. Para isso, digo: modernizem-se em termos de gestão e de atuação, somando-se a outros agentes do mercado e porque não, unindo patrimônios. Para aqueles que têm resistência ao aumento de escala, um recado: essa resistência atrapalha o bom desenvolvimento do mercado. Médias, tornem-se grandes, há oportunidades de fusão.
Acredita que o movimento de concentração de mercado volta com força?
Embora não tenha visto nenhuma operação concluída, as empresas incorporadoras capitalizadas, por se sentirem ameaçadas pelo padrão de crise, iniciaram a introdução de decisões de gestão mais modernizadas, como aproximação patrimonial com outras empresas. Essa é uma tendência e seria um movimento positivo do ponto de vista do fortalecimento do setor. Esse processo deve acontecer entre as grandes, mas principalmente com as médias.
Você disse que só o segmento de habitação está aquecido. Mas infraestrutura recebeu dotação do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).
O PAC tem dotação orçamentária de R$ 10 bilhões, mas não consegue gastar menos que meio bilhão em investimentos. Existe uma completa ausência de planejamento de empreendimentos de infraestrutura. Falta desenho, estudo de viabilidade econômica, detalhamento de cronograma físico do empreendimento. Se o processo de contratação não é feito com um bom projeto e o empenho do recurso não está lastreado, o risco de paralisação é muito grande. No Brasil, inacreditavelmente a cultura de contratação de obras públicas não dá relevância ao projeto.
Isso é cultural ou incompetência?
Os dois. Existe uma real lacuna de mão de obra especializada dentro das instituições, ministérios e secretarias. Simplesmente não há equipe qualificada suficiente que saiba estipular, especificar, contratar e fazer um planejamento de um empreendimento. O governo abriu mão de engenheiros que faziam planejamentos de obras, então, agora, se não há contratação aqui dentro, vamos importar. Planejamento prevê repatriamento de engenheiros, por exemplo. É importante reconquistar os bons engenheiros que saíram do País e, para isso, é preciso prever e planejar bons salários.
Mas qual a saída no curto prazo?
As dificuldades são maiores para contratações públicas puras, via 8666 (Lei de Licitações). É possível contratar projetos conjuntamente com o setor privado. O governo anuncia um determinado empreendimento, o ator privado faz o projeto e disponibiliza o estudo. Com base nesse estudo, acontece a licitação. Se a empresa responsável pelo estudo ganha a concorrência, ótimo; se perde, é remunerada pelo custo da execução do projeto. Esse modelo de concessões costuma andar mais rápido.
Investimento estrangeiro e de fundos de pensão podem impulsionar o setor?
Sim. É uma decorrência natural da situação de juros baixos. Os fundos de pensão estão absolutamente voltados para construção, em especial para infraestrutura e obras de energia. Além disso, a carteira própria do BNDES, que quase dobrou os recursos do Tesouro Nacional, tem sido usada no limite. Mas a questão não é o investimento e, sim, existência (ou ausência) de projeto. Qual projeto está prontinho, estudado, com licença ambiental aprovada? Poucos. A infraestrutura vive hoje muito mais uma situação estrutural de falta de projetos do que de crise.
E no setor industrial? Já há sinais de melhora?
A indústria de transformação está muito prejudicada pela falta de dinamismo das exportações. Mas setores como vestuário e têxtil - que sofreu menos por conta da diminuição da concorrência com importados - e alimentos devem crescer mais, e com eles talvez haja boas oportunidades de obras. Nos setores de exportação, os investimentos em expansão tendem a demorar mais. Para quem vive de galpão, a dica é focar em produtos típicos do País.